Algoritmos afetam a saúde mental?

Entenda como algoritmos das redes sociais influenciam atenção, emoções, comparação e saúde mental.

VIDA DIGITAL, TECNOLOGIA E SAÚDE MENTAL

Matheus Souza

7/21/20263 min read

Quando uma pessoa abre uma rede social, ela não vê simplesmente “o que está acontecendo”. Ela vê uma seleção de conteúdos. Essa seleção é feita por algoritmos, sistemas que organizam e recomendam publicações a partir de dados de interação: o que você assiste, no que para, o que compartilha, o que comenta e o que procura.

Algoritmos não conhecem a história de alguém como um amigo conhece. Eles não compreendem luto, medo, vulnerabilidade ou ambivalência. Ainda assim, aprendem rapidamente o que prende atenção.

Atenção virou disputa

A maior parte das plataformas digitais depende de tempo de permanência e engajamento. Quanto mais alguém continua na tela, mais dados produz e mais anúncios pode receber. Por isso, conteúdos intensos, surpreendentes, indignados ou emocionalmente carregados tendem a circular com força.

Esse mecanismo não significa que todo conteúdo recomendado seja prejudicial. Muitas recomendações ajudam pessoas a encontrar informação, lazer, comunidades e apoio. O problema surge quando o sistema reforça repetidamente aquilo que desperta medo, comparação ou ruminação.

Alguém com ansiedade de saúde pode começar buscando uma explicação inocente para um sintoma e terminar em uma sequência de vídeos alarmantes. Outra pessoa, fragilizada após uma separação, pode ser exposta continuamente a conteúdos sobre abandono, traição e vigilância afetiva. O algoritmo não cria necessariamente a dor, mas pode ampliar o circuito que a mantém ativa.

A responsabilidade não pode ser só individual

Uma revisão ampla conduzida por Alice Sala e colegas, publicada em 2024, analisou 24 revisões e meta-análises sobre uso de redes sociais e saúde mental de adolescentes. Os autores defendem que a prevenção não pode depender apenas de escolhas individuais, porque plataformas e seus recursos de design também moldam a experiência de usuários.publications.jrc.europa

Essa ideia é importante. Não se trata de retirar qualquer responsabilidade das pessoas, mas de reconhecer que escolhas individuais acontecem dentro de ambientes construídos para capturar atenção. Pedir apenas que adolescentes ou adultos “usem melhor” as redes é insuficiente quando notificações, recomendações e rolagem infinita funcionam na direção contrária.

Como criar distância crítica?

Não é necessário entender programação para construir uma relação mais consciente com os algoritmos. Vale observar quais conteúdos aparecem repetidamente e como eles afetam o humor. Um feed que produz medo, inferioridade ou irritação constante pode ser reorganizado: deixar de seguir, silenciar, marcar conteúdos como desinteressantes e buscar fontes mais confiáveis também muda o ambiente digital.

Na clínica, o algoritmo pode ser entendido como parte do contexto de sofrimento. Ele não substitui questões pessoais, sociais ou familiares, mas pode participar de sua amplificação. Nomear esse processo ajuda a reduzir uma culpa frequente: a sensação de que a pessoa está falhando individualmente diante de uma estrutura desenhada para ser difícil de interromper.

Referências

Sala, A., et al. (2024). Social media use and adolescents’ mental health and well-being: An umbrella review. European Commission, Joint Research Centre. A revisão analisou 24 sínteses de pesquisa e enfatizou que os efeitos dependem de diferenças entre plataformas, usuários e recursos de design.publications.jrc.europa

Valkenburg, P. M., Meier, A., & Beyens, I. (2022). Social media use and its impact on adolescent mental health: An umbrella review of the evidence. Current Opinion in Psychology, 44, 58–68. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2021.08.017sciencedirect

Este conteúdo foi elaborado com base em evidências científicas

Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Ele foi produzido a partir da literatura científica disponível e da experiência clínica do autor, mas não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individual.

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