Aliança terapêutica: por que a relação com o psicólogo importa tanto?
Saiba o que é aliança terapêutica, por que ela influencia os resultados da psicoterapia e como funciona no atendimento online.
PSICOTERAPIA E CLÍNICA CONTEMPORÂNEA
Matheus Souza
7/16/20267 min read


Aliança terapêutica: por que a relação com o psicólogo importa tanto?
Muitas pessoas procuram psicoterapia imaginando que o resultado dependerá exclusivamente da abordagem escolhida pelo profissional. É compreensível: nomes como psicanálise, terapia cognitivo-comportamental, terapia do esquema ou terapia humanista parecem indicar caminhos inteiramente diferentes. As abordagens realmente possuem métodos, conceitos e técnicas próprias. Porém, existe um elemento que atravessa boa parte da pesquisa em psicoterapia: a qualidade da relação de trabalho entre paciente e terapeuta.
Essa relação recebe o nome de aliança terapêutica. Ela não é um detalhe acolhedor ou um extra opcional do tratamento. É uma das variáveis mais estudadas e mais consistentemente relacionadas a bons resultados em diferentes modalidades de psicoterapia.
O que é aliança terapêutica?
A aliança terapêutica é a colaboração construída entre paciente e terapeuta. O psicólogo Edward Bordin descreveu esse conceito a partir de três elementos: vínculo, objetivos e tarefas.
O vínculo é a experiência de ser tratado com respeito, atenção e seriedade. Não se trata de amizade ou de concordância constante. Trata-se de poder falar de experiências difíceis sem medo de ridicularização, pressa ou julgamento moral.
Os objetivos respondem à pergunta: “O que estamos tentando trabalhar?”. Uma pessoa pode procurar terapia por ansiedade e, ao longo das sessões, perceber que sua angústia está ligada também a relações marcadas por controle, dificuldade de dizer não ou sensação persistente de inadequação. Os objetivos podem mudar, mas precisam ser conversados.
As tarefas são os meios do processo. Elas podem envolver refletir sobre relações, observar pensamentos, entrar em contato com emoções, retomar lembranças, experimentar novas formas de comunicação ou realizar exercícios entre sessões. Essas tarefas precisam ser compreensíveis e fazer sentido para a pessoa. Quando uma intervenção parece estranha, excessiva ou desconectada da demanda, é importante que isso possa ser dito.
O que a ciência mostra?
Uma meta-análise publicada em 2018 reuniu 295 estudos e mais de 30 mil pacientes. Ela encontrou uma associação positiva robusta entre aliança terapêutica e resultado do tratamento em psicoterapias presenciais e também em intervenções baseadas na internet.
Os autores identificaram uma correlação de aproximadamente 0,28 entre aliança e desfecho clínico, um efeito considerado relevante em pesquisas sobre psicoterapia. A associação se manteve entre diferentes abordagens, medidas de avaliação, características dos pacientes e países.
É importante interpretar esses dados com cuidado. Uma boa aliança não explica tudo. A melhora também pode fazer com que a pessoa avalie a terapia de forma mais positiva. Além disso, diagnósticos, gravidade do sofrimento, qualidade técnica da intervenção, contexto social, acesso à saúde e condições materiais afetam o tratamento.
Ainda assim, a consistência desse resultado reforça uma ideia fundamental: técnicas importam, mas elas funcionam dentro de uma relação. A pessoa precisa conseguir entender o propósito do trabalho, sentir que suas experiências são levadas a sério e participar das decisões sobre o processo.
Uma boa terapia não evita conflitos
Existe uma fantasia de que uma boa relação terapêutica é sempre tranquila. Na prática, toda relação humana suficientemente significativa pode produzir mal-entendidos, frustrações e distanciamentos. Na psicoterapia, esses episódios são chamados de rupturas da aliança.
Uma ruptura pode acontecer quando o paciente sente que o terapeuta não compreendeu algo importante. Pode aparecer quando uma pergunta parece invasiva, quando uma intervenção vem cedo demais ou quando o paciente começa a concordar com tudo para não decepcionar o profissional. Às vezes, ela se manifesta por atrasos recorrentes, faltas, silêncio excessivo ou vontade de desistir da terapia.
Rupturas não significam, por si só, que o processo fracassou. Uma meta-análise de 11 estudos, envolvendo 1.314 pacientes, encontrou associação moderada entre reparação dessas rupturas e melhores resultados terapêuticos. Quando o problema pode ser reconhecido e discutido, ele se torna uma oportunidade de construir uma experiência diferente daquela vivida em outras relações.pubmed.ncbi.nlm.nih
Por exemplo, alguém que aprendeu que discordar sempre produz abandono pode descobrir que é possível dizer “não gostei do que você falou na sessão passada” sem ser punido ou rejeitado. Alguém habituado a silenciar pode experimentar que seu incômodo tem lugar. A reparação não apaga a dificuldade, mas pode mudar a forma como a pessoa se relaciona com conflito e vulnerabilidade.
Como saber se existe confiança?
A confiança terapêutica não costuma surgir de modo imediato. Ela é construída por repetição, coerência, confidencialidade, presença e respeito aos limites. Nos primeiros encontros, é esperado que muitas pessoas se sintam estranhas, observadas ou cautelosas.
Com o tempo, alguns sinais podem indicar que a aliança está se formando. A pessoa consegue falar de temas importantes, mesmo que com dificuldade. Ela entende por que certas perguntas são feitas. Sente que pode discordar, fazer perguntas e expressar dúvidas. Percebe que o terapeuta não tenta encaixá-la em uma narrativa pronta.
Também existem sinais de alerta. A pessoa pode sentir que é constantemente julgada, que suas questões são minimizadas, que não existe clareza sobre o trabalho ou que não há espaço para apontar incômodos. Esses sentimentos não devem ser ignorados. Em muitos casos, vale a pena levá-los diretamente para a sessão. Se não houver abertura para conversar sobre isso, pode ser importante considerar outro profissional.
Atendimento online e vínculo
O atendimento por videochamada tornou a psicoterapia mais acessível para pessoas que vivem em outras cidades, têm rotinas de trabalho intensas, enfrentam dificuldades de mobilidade ou preferem a privacidade de não se deslocar até um consultório. Mas é natural perguntar se uma relação terapêutica pode ser construída por uma tela.
Uma meta-análise com 18 publicações não identificou diferença estatisticamente significativa na qualidade da aliança terapêutica entre psicoterapia por videoconferência e psicoterapia presencial, tanto nas avaliações dos pacientes quanto nas dos terapeutas.pubmed.ncbi.nlm.nih
Isso não significa que as duas modalidades sejam idênticas. No atendimento online, privacidade, estabilidade da conexão, uso de fones de ouvido e a escolha de um ambiente minimamente reservado fazem diferença. A experiência de falar de algo íntimo enquanto há outras pessoas em casa, por exemplo, pode limitar a liberdade de expressão.
A modalidade mais adequada depende das necessidades e condições de cada pessoa. Para algumas, a tela oferece segurança e praticidade. Para outras, a presença física facilita concentração, percepção corporal e separação entre vida doméstica e espaço terapêutico. O mais importante é que essa escolha possa ser conversada de forma aberta.
Vínculo humano em um mundo digital
Vivemos em uma época que estimula respostas imediatas, exposição constante e comunicação acelerada. Redes sociais podem oferecer pertencimento, informação e apoio, mas também podem intensificar comparação, hostilidade e pressão por desempenho. Estudos associam o uso problemático de redes sociais, especialmente entre adolescentes e jovens adultos, a sintomas de depressão, ansiedade e estresse, embora esses efeitos sejam complexos e não possam ser reduzidos a uma relação simples de causa e efeito.ncbi.nlm.nih+1
Nesse cenário, a psicoterapia pode oferecer um espaço distinto. Não porque exista fora das condições sociais, políticas e tecnológicas que atravessam a vida, mas porque permite examiná-las. A ansiedade de alguém pode envolver sua história pessoal e, ao mesmo tempo, a precarização do trabalho. A sensação de insuficiência pode ter raízes afetivas antigas e ser amplificada por imagens idealizadas nas redes.
Ferramentas de inteligência artificial também podem oferecer informação e conversas aparentemente acolhedoras. Entretanto, elas não assumem responsabilidade clínica, não respondem eticamente por suas intervenções nem participam, de modo humano e situado, da história de uma relação. O trabalho psicoterapêutico envolve mais do que respostas linguisticamente plausíveis: envolve escuta, presença, responsabilidade, limite e construção compartilhada de sentido.
Perguntas frequentes
Preciso gostar do meu psicólogo desde a primeira sessão?
Não necessariamente. Confiança pode levar tempo. O essencial é perceber respeito, clareza, disponibilidade para escutar e abertura para construir objetivos em conjunto. Se a sensação de julgamento, desconexão ou insegurança persiste, ela merece ser discutida.
Posso dizer que não gostei de uma sessão?
Sim. Poder dizer isso pode ser uma parte importante da terapia. Uma relação terapêutica saudável não exige concordância permanente. O modo como o profissional acolhe esse tipo de conversa também revela algo importante sobre a qualidade do vínculo.
A terapia online cria um vínculo menos profundo?
Não obrigatoriamente. Pesquisas recentes não encontraram diferença estatisticamente significativa na aliança terapêutica entre atendimento por videochamada e presencial. A qualidade do vínculo depende de vários fatores, como privacidade, comunicação, regularidade e adequação da modalidade à pessoa.pubmed.ncbi.nlm.nih
Referências
Bordin, E. S. (1979). The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 16(3), 252–260. https://doi.org/10.1037/h0085885
Eubanks, C. F., Muran, J. C., & Safran, J. D. (2018). Alliance rupture repair: A meta-analysis. Psychotherapy, 55(4), 508–519. https://doi.org/10.1037/pst0000185pubmed.ncbi.nlm.nih
Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E., & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4), 316–340. https://doi.org/10.1037/pst0000172pubmed.ncbi.nlm.nih
Seuling, P. D., Fendel, J. C., Reaume, J., et al. (2024). Therapeutic alliance in videoconferencing psychotherapy compared to psychotherapy in person: A systematic review and meta-analysis. Journal of Telemedicine and Telecare. https://doi.org/10.1177/1357633X231161774journals.sagepub+1
Shannon, H., Bush, K., Villeneuve, P. J., Hellemans, K. G. C., & Guimond, S. (2022). Problematic social media use in adolescents and young adults: Systematic review and meta-analysis. JMIR Mental Health, 9(4), e33450. https://doi.org/10.2196/33450mental.jmir
Este conteúdo foi elaborado com base em evidências científicas
Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Ele foi produzido a partir da literatura científica disponível e da experiência clínica do autor, mas não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individual.
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